Há umas cartas atrás, falei sobre uma forma que vejo de olhos fechados. Preciso de retomar esse assunto, porque tenho de confessar que não fui totalmente honesto. Ou melhor, entretanto percebi mais umas coisas que tornam aquilo que escrevi não totalmente verídico.
A forma não aparece sempre. Uns dias depois da minha tentativa de descrição, voltei a ter um episódio semelhante. Mas desta vez, não vi volumes estranhos, não vi a forma que me aterrorizava quando criança. Eu vi o que via de olhos abertos, mantendo-se, ainda assim, a desproporção medonha das coisas à minha volta. Primeiro, comecei a sentir que a minha cabeça era muito muito demasiado maior que o meu corpo, inicialmente o nariz e os lábios, à medida que respirava, como se inflamasse, como se intumescesse para lá do aceitável. A coluna do edifício que estava à minha frente, via-a de olhos fechados e estava assustadoramente perto de mim, mas não a tocava (nunca toco em nada nestas visões — aliás, acho que nem mãos tenho), como se a visse através de uma objectiva fotográfica de grande angular, a coluna distorcida em linhas diagonais infinitas. Depois, a sensação da inflamação alastrou-se para toda a cabeça, do céu da boca para cima, sentia-a enorme, o resto do meu corpo minúsculo. Toda a minha energia, o meu sangue, a minha atenção, concentravam-se no ponto entre o nariz e a testa, o meu novo centro de gravidade; pendia a cabeça levemente para a frente, como adormecendo, como se me desequilibrasse perante este peso inesperado. No peito, inquietação. Deixei-me ir no que estava a ver e a sentir, para descobrir onde me levava. Assolou-me uma pontada de calor na testa, como se alucinasse de olhos fechados. Abri os olhos.
Não sei o que isto é. O medo antes do nirvana? Será que encontrei um atalho para a iluminação? Foi sem querer, juro. Até porque nem sei como alcançá-la a partir daqui. Tenho procurado pistas nestas alucinações, pistas que me digam o que significam ou onde é suposto me levarem. Mas não descobri nada. Provavelmente não há sítio nenhum para ir, nem qualquer significado. Provavelmente são só visões de neurónios gastos, as últimas sinapses antes de desaparecerem (os neurónios morrem assim?).
Toda esta situação abala a minha necessidade de ordem e razão. Nada nestas visões faz sentido ou tem um propósito. Existem para me desorientar. Ou existem, apenas, e desorientam-me.
Penso no mar para me acalmar. É um mecanismo clássico (cliché até), quantas pessoas não deverás conhecer que gostam de visitar as ondas ao final da tarde, ver o pôr do sol e relaxar! Penso no mar, mas a minha imagem dele é um cubo isolado de tudo, um cubo flutuante de ondas salgadas. Suspenso no vácuo, negro a toda a volta, a espuma forma-se e engole-se sobre si mesma, a água rebatendo-se na sua própria criação. Imagino o cubo e respiro.
A desorientação e o desequilíbrio de que falei anteriormente não são a mesma coisa. O primeiro é sobretudo mental. Sinto-o nos pensamentos. Penso-o, portanto. É um pensamento ou está nos pensamentos? Subtilezas da linguagem... O pensamento que desorienta vem de outro lugar que não eu, vem do encaixe imperfeito entre o meu corpo e o mundo. Pára-me de repente o pensamento. Ou o corpo. Fico imóvel por uma fracção de segundo, o suficiente para eu notar, mas não tanto para outros perceberem. Desorienta-me, porque não sei o que pensar a seguir. Perturba-me a ordem dos pensamentos. Perturba-me a ordem das acções. Perturba-me a ordem.
Uma ordem perturbada é uma desordem. Não há meios termos ou zonas cinzentas. Desordenado, o meu pensamento será errante, saltando entre o real e o imaginado, construindo narrativas sem sentido. Deixarei a louça por lavar, os livros por guardar, a roupa por passar, o pó por aspirar. Deixarei a minha casa reflectir a minha desordem até, até até até, até!
Até me vir o desequilíbrio. Esse é sobretudo físico. Falhar um degrau, pisar um chão diferente, apaixonar-se por uma parede. O desequilíbrio é um pêndulo lateral, magnético, enviesado para um dos lados. Caminho sempre um pouco para a direita, andasse eu o suficiente e voltava ao ponto de partida. O desequilíbrio sente-se debaixo dos ossos do tórax, uma massa espessa a ocupar um espaço antes vazio, ou ao contrário. Debaixo dos ossos do tórax, uma infecção pendular. A cura está em lavar a louça, guardar os livros, passar a roupa, aspirar o pó. Esquecer a paixão. Abandoná-la. Sabotá-la antes dela te queimar a pele.
Um abraço.
Miguel













