alarido
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da liberdade.
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da liberdade.

ser livre é uma inevitabilidade da história.

A liberdade é um conceito demasiado vasto para ser entendido com exactidão na mente humana. É tão vasta e tão invisível, que parece não existir; que é a mesma coisa que dizer que parece que, não existindo, não faz falta.

A liberdade está em todas as coisas e em toda a parte, faz-se dos toques e dos olhares, faz-se do que nos torna humanos e daquilo que não nos pertence.

A liberdade tem a cor da terra e a cor do céu, mas não tem início nem fim, pelo que entender a liberdade é forçosamente ter de abarcar toda a existência, desde o vazio do nada ao fim de tudo.

A liberdade continuará depois do fim de tudo. É impossível aprisionar os infinitos átomos que compõem a vida toda. É impossível criar um qualquer dispositivo que instaure uma interrupção da liberdade, porque ele próprio será feito de átomos livres, e a sua composição será factor decisivo para a sua destruição.

A liberdade é auto-suficiente, imuno-resistente, permanece num estado de euforia silenciosa. Não é feita de palavras, nem sons, não é feita de visões, nem gestos. É feita do ar, do suspiro, do calor da respiração, é feita de vida, da pulsão, da vida e da morte, do movimento e da quietude. Está em todo o lado, já disse.

A liberdade é invencível, não precisa de multidões, não precisa de palavras de ordem, não precisa de canções, não precisa de marchas, nem armas, nem sangue, nem corpos. Não precisa dos homens, nem das mulheres, nem das crianças, não precisa de nada nem ninguém.

A liberdade é, só e apenas. Um facto inabalável, indissociável da existência pura. Existir é uma condição da liberdade. Ser livre é uma condição de existir. A raiva é uma exigência de se ser livre. A raiva, estar enraivecido, ser a raiva, espalhar a raiva, como cães soltos, em fúria, a raiva é uma exigência da liberdade.

Não existe a possibilidade da extinção da liberdade. Enquanto houver consciência, haverá liberdade. Enquanto houver corpo, haverá liberdade. Afrontar um ser livre é questionar as leis da física, e na sua impossibilidade matemática, sobra a derrota.

Tu, que ameaças a liberdade, diz-me: que desejo da tua morte vive no teu pensamento? Porque preferes morrer a existir na plenitude? Que asas te deu Ícaro que te convencem a conseguir contrariar a gravidade? Não existe espaço para a possibilidade de ti. Somos como uma praga auto-reprodutora: enquanto existir um de nós, existe a liberdade; e espalharemos a doença pelo teu corpo, esse teu corpo que já a contém. A tua liberdade é a minha liberdade e a minha liberdade é a tua liberdade.

Se me prenderes, prendes-te a ti próprio, e dentro da mesma jaula, não tenho alternativa senão ingerir-te, digerir-te, mastigar as tuas entranhas num gole sôfrego, espalhar o teu sangue pelo meu corpo. Dentro da mesma jaula, somos todos livres; e eu, cuja sede é mais aparente, beberei com mais vontade, até nada de ti restar.

Não existe a possibilidade da extinção da liberdade. Não te esqueças disso, da próxima vez que clamares pela minha morte.

Um abraço.
Miguel

música da leitura desta carta: siebe — eric holm

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